Ele riu baixinho, mas não havia nada de caloroso nisso. Anos antes, aquele riso me fazia sentir segura, como se eu tivesse escolhido alguém forte o suficiente para nos acompanhar pela vida. Naquela noite, porém, soou como o som de uma faca raspando um osso.
"Cansada de quê?", perguntou ele, agora me olhando com evidente irritação. "Da vida que eu te dei? Emily, eu estou me matando de trabalhar enquanto você fica aí sentada fazendo o quê, exatamente?"
Aquelas palavras me atingiram com mais força porque me eram familiares. Não a frase exata, talvez, mas a forma como foi dita. Ryan havia aprendido, ao longo do último ano, a transformar dependência em acusação, a fazer meus sacrifícios parecerem fracassos, a falar comigo como se os anos que dediquei ao nosso casamento tivessem sido um passatempo indulgente.
Engoli em seco e tentei manter a voz firme. "Enquanto faço o quê? Enquanto imploro para você falar comigo? Enquanto finjo não saber que existe outra mulher?"
Isso chamou sua atenção. Ele congelou tão repentinamente que até o ar na sala pareceu encolher.
Por um instante, ele me encarou, e vi uma expressão calculista cruzar seu rosto. Surpresa, depois raiva, e então algo mais frio. Não era culpa. Eu teria reconhecido a culpa. Isso era apenas um inconveniente.
"Aquele do seu escritório", eu disse, antes que me faltasse coragem. "Aquele que liga à meia-noite e desliga quando eu atendo."
Seu maxilar se contraiu. "Você está me espionando agora?"
Quase ri, mas o que saiu da minha boca soou mais como dor. "Tentei salvar um casamento que você já havia abandonado."
Algo dentro dele se quebrou naquele instante, ou talvez já tivesse se quebrado há muito tempo e aquela fosse simplesmente a primeira vez que ele parava de fingir o contrário. Ele se endireitou, e o olhar que me lançou era tão desprovido de ternura que mal reconheci o homem que um dia amei.
“Sabe de uma coisa?”, disse ele. “Se você está tão infeliz aqui, vá embora.”
Por um instante, cheguei a pensar que tinha entendido errado. As palavras eram claras demais, simples demais, definitivas demais para serem a expressão de uma raiva conjugal normal. Encarei-o, esperando que ele se retratasse, que suavizasse o tom, que dissesse que não era aquilo que queria dizer. Ele não fez nada disso.
"O quê?" sussurrei.
"Vá", disse ele, apontando para a porta da frente com uma calma que me assustou mais do que um grito teria assustado. "Pegue suas coisas e vá."
O quarto pareceu inclinar. Lembro-me de ter agarrado a borda do balcão porque tinha medo que meus joelhos cedessem. Eu havia imaginado uma traição, uma confissão, talvez até um divórcio, mas não imaginei ser descartada assim, tão rápida e eficientemente, como se toda a minha vida pudesse ser empacotada em uma mala e levada embora antes da meia-noite.
"Você está me expulsando?", perguntei. "Por causa dele?"